Adeus, Hangar 110!

Uma parte da nossa adolescência deixará de existir neste ano. É uma era que se encerra em 2017. Por isso, queremos registrar o quão importante o Hangar 110 foi em nossas vidas e escrevo esse singelo texto para relembrar a cena underground:

Era 2003. Tinha completado 14 anos há pouco tempo. A idade mínima para entrar no Hangar 110 sem a companhia de um adulto. Antes disso, ficava sonhando com o dia que frequentaria aquela tão famosa casa fundada em 1998, no Bom Retiro, com shows de bandas do cenário underground de punk e hardcore.

Ingressos dos shows que a Bruna foi no Hangar 110

Vestia uma blusa provavelmente do Ramones e um surrado tênis All Star. A ansiedade batia no peito de felicidade, mas também pelo medo dos Skinheads – muito comum ter esse tipo de briga nas portas de shows ou na Galeria do Rock entre punks e skins.

Encontrei meus amigos da escola para o tão esperado show da banda punk Cólera e Os Excluídos. Com apenas oito reais comprei meu ingresso (ou seja, com R$ 20 éramos ricos no rolê). Entrei naquele lugar e meus olhos brilharam. Fiquei me achando superindependente e diferentona por ser a única menina do grupinho do rock. A casa, na época, ainda tinha um mini ramp (retirado anos depois para caber mais gente), onde se podia andar com o seu próprio skate enquanto os shows rolavam. Era uma energia incrível que não dá para descrever. De verdade.

Poucos anos depois, a cena do Hangar 110 foi invadida pelo Emocore, não sei ao certo como essa transformação se deu, só sei que quando vimos, já tinha acontecido. Lembro-me das minhas mp3 de punk e HC se transformarem aos poucos em descobertas de bandas como Dance of Days, Fresno, Nx Zero, Glória, entre outras tantas. E só depois descobrir que aquilo tinha um nome e que era ser EMO. Hahaha

Se quiser entender melhor, veja o documentário “Do Underground ao Emo“, produzido em 2014.

As bandas arrastavam multidões para a porta do Hangar, virando até mesmo um rolê para quem não entrasse para assistir aos shows que estavam com os ingressos esgotados. Se não conseguisse na porta, tudo bem. O importante era ver os amigos.

Uma geração do ICQ, MSN e Orkut, ávida por novidades, que não dependia da grande mídia, como a MTV, para decidir qual seria o próximo hit da galera. Bastava frequentar os shows das bandas, acessar os sites punk.net ou Zona Punk, baixar mp3 na internet, no caso o Kazaa e depois o Tramavirtual, e dividir a descoberta com nossos amigos ou no fim da legenda da foto postada no Fotolog.

Felipe e eu nos conhecemos nessa época, meados de 2006, graças a um amigo em comum. A gente viveu a mesma adolescência, mas ainda não tínhamos ido ao Hangar 110 juntos, como namorados.

A DESPEDIDA
Foram cerca de 10 anos frequentando a casa, até 2013 eu ia pelo menos uma vez ao ano. Nesta semana, 14 anos depois de ter pisado pela primeira vez no Hangar 110, me despedi com um verdadeiro show raiz do NX Zero, que, por coincidência, também está encerrando as atividades neste ano.

Com um setlist recheado de músicas do CD homônimo da banda, de 2006, não teve como não sair lavada de suor e sem voz. Ouvir aqueles acordes que embalaram minha adolescência, meu Deus! Foi de arrepiar!

O Hangar 110 foi superimportante para o cenário underground. Ele abriu suas portas e deu espaço para pequenas bandas mostrarem seu trabalho, como o Skema 110, que por meio de votação, a banda escolhida abria o show de grandes bandas.

Ele foi palco para muitas bandas serem descobertas, muito antes delas aparecerem no Disk MTV, como o NX, CPM, Dead Fish. Fora as bandas que vinham de outros estados tocar aqui, a Fresno, por exemplo.

Mas da mesma forma que a cena explodiu, as coisas começaram a ficar estranhas por conta da exposição na grande mídia, então aparentemente esse movimento do underground também acabou do nada. Em 2007 eu já não ia mais com tanta frequência, talvez a maioridade tenha me afastado um pouco disso tudo. Eu me achava velha demais para dividir a plateia com público de Restart, Cine e afins. Fiquei sem paciência! hahaha

Existiram tantos outros lugares, como Volkana, Black Jack, Tribe House, Atari, DJ Club. Mas nenhum deles teve o mesmo impacto que o Hangar 110 teve na vida de muita gente. Ficarão as saudades e nosso eterno obrigado ao por ter contribuído com a melhor adolescência que poderíamos ter! ❤️

Jornalista, 28 anos

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